Que bom que a gente muda

Por Amor foi a primeira novela que assisti do início ao fim. Já tinha passado o olho em algumas, mas como era criança, preferia ficar na rua brincando. Mas, em outubro de 1997, eu então com nove anos de idade, peguei a novela do Maneco pra assistir.

Pela primeira vez me envolvi com uma história que não era um desenho animado. Entendi a estrutura dos personagens, torcia para os mocinhos, achava graça da vilã, me compadecia pelo bondoso Léo (Murilo Benício), tinha uma pena gigante do alcoólatra Orestes e ficava meio impressionada com a paixão de Nando e Milena (Eduardo Moscovis e Carolina Ferraz) – que vamos combinar, era meio impróprio pra minha idade.

Uma das lembranças mais fortes que tenho da trama é a traição. O mocinho Marcelo (Fábio Assunção) traiu a esposa Maria Eduarda (Gabriela Duarte) com a vilã Laura (Viviane Pasmanter). Eu pensava que era impossível perdoar uma traição, mas ao mesmo tempo torcia para o casal protagonista ficar junto. A sensação de pensar na traição foi muito forte na época, eu ficava analisando o que os personagens deviam ou não fazer.

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A novela foi reprisada em 2002 no Vale a Pena Ver de Novo Rede Globo e, super feliz, assisti à trama pela segunda vez. Em 2017, a novela está sendo reprisada mais uma vez, agora no Canal Viva, em comemoração aos seus 20 anos de estreia. Assisto apenas aos sábados, quando reprisam o capítulo exibido na sexta-feira anterior. O que me levou a escrever este texto foi a percepção de: que bom que a gente muda!

Eu adorava Marcelo e achava ele lindo (ainda acho). Fábio Assunção foi meu primeiro crush da vida. Na 3ª ou 4ª série eu tinha um caderno com o ator estampado na capa, com aquele cabelo mais comprido de O Rei do Gado. Marcelo representava o cara bonito, jovem, bem sucedido e galã que, perdidamente apaixonado pela esposa, abria mão das dezenas de mulheres que caiam no colo dele. E eu achava isso bem legal.

Assistindo à novela hoje, cada cena só confirma o tanto que Marcelo é babaca. Tudo tem que ser do jeito dele, ele nunca se envolve na criação do filho, trata o sogro como se fosse um lixo, é um babaca com a sogra, não deixa Eduarda olhar pro amigo (ex-namorado de infância), trata mal os irmãos, é um filhinho da mamãe que nunca a critica por tratar os dois irmãos como lixo e já bateu na Laura algumas vezes. Ou seja, o mocinho Marcelo, além de babaca, era um agressor de mulheres.

E falo isso hoje sem criticar o autor da novela. Assistindo à trama com a maturidade que tenho hoje, entendo que Maneco mostrou uma situação. Nos apresentou uma família de classe média alta com todos os seus defeitos e qualidades. Em momento algum ele exalta a babaquice de Marcelo, apenas nos mostra quem ele é. A idiotice do mocinho fica latente na discrepância de caráter dele em relação ao irmão: o bonzinho Léo.

O bom disso tudo é que a gente muda! Pelo menos algumas pessoas mudam. E eu fico feliz que mudei minha cabeça. Continuo achando o personagem bonito fisicamente, mas como ser humano ele chega a ser repugnante. O erro não estava na representação do personagem, mas sim em quem o via como um grande galã. Eu tinha a percepção do mocinho perfeito aos 9 anos de idade, e também um pouco na adolescência, quando a novela foi reprisada. Mas que bom que a gente cresce, né?!

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15 anos sem Cássia Eller

Era 29 de dezembro de 2001. Eu tinha 13 anos. Numa tarde ensolarada e quente de mais um sábado de verão fui para o quarto da minha mãe assistir a um filme exibido na antiga Sessão de Sábado da Globo. O quarto é o último da casa e, portanto, o mais fresco, e por isso me serviu de refúgio.

Há alguns anos eu tinha certeza de que o filme era Um Herói de Brinquedo, mas hoje, 15 anos depois, minha memória daquele dia começa a falhar. Então não sei mais se o filme era esse do Schwarzenegger ou Debi & Lóide. Mas não importa, o fato é que minha diversão foi interrompida com mais um plantão da Globo, que se hoje é assustador, imagina há 15 anos…

Fátima Bernardes invadiu minha TV de 14 polegadas para dar uma notícia horrível: a morte de Cássia Eller. Aí vem outro problema de memória. Antes achava que o plantão tinha entrado no meio do filme com o anúncio da morte, agora – vendo notícias da época que informaram que a morte aconteceu por volta das 19h – não tenho mais certeza. Os filmes terminam às 18h para a entrada da novela, então não faria sentido a notícia da morte ter sido dada no meio do filme.

Memórias, horários e programação não importam. O fato é que aquele plantão foi um dos piores para mim. Fui tomada de surpresa com a notícia e entrei num universo paralelo. Fátima só podia estar mentindo, aquilo não estava acontecendo, como uma mulher que estava todos os dias cantando num programa de TV diferente estava morta? Como alguém com tanto vigor no palco e tão jovem tinha acabado de morrer?

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Foi difícil e doloroso aceitar a morte de alguém que estava finalmente alcançando o sucesso que seu talento extraordinário sempre mereceu. Uma das primeiras músicas que me recordo de ouvir na minha vida foi Malandragem, na voz de Cássia. Quando era criança não fazia ideia de quem estava cantando e nem me importava. Eu era uma criança e não entendia o universo musical, artistas, compositores…. Não conseguia associar uma música a uma pessoa.

Com o passar do tempo meu entendimento sonoro foi se aprimorando e o nome dos artistas passaram a fazer parte da minha vida. E Malandragem seguia sempre tocando nas rádios, em alguma festa, em algum lugar… A música é uma das minhas favoritas da vida porque me remete a um tempo que não volta mais: aquela primeira memória musical, aquela pureza de ouvir algo e, mesmo sem entender, gostar absurdamente.

Malandragem fez parte de mim e tempos depois conheci sua intérprete mais famosa. Confesso que o conhecimento maior sobre a cantora veio na sua fase de mais sucesso, aquela mesma que precedeu sua morte: o início dos anos 2000. Esse início de novo milênio fez uma pequena revolução musical com os acústicos da MTV, projeto do canal de TV que trazia artistas veteranos para tocar suas músicas numa roupagem diferente.

Os acústicos MTV resgataram bandas como Ira! e Capital Inicial, além de fazer a justiça de apresentar Cássia Eller a uma nova geração. E eu fazia parte dessa geração, embora conhecesse parte do trabalho da cantora. O “Acústico MTV Cássia Eller” me fez adorar suas músicas, sua postura e me fez correr atrás de mais informações. Numa época em que eu não tinha internet, o conhecimento expandido de Cássia veio principalmente de programas da TV Brasil, como “Bem Brasil” e “Ensaio com Cássia Eller”, além de alguns shows regados apenas à voz e violão.

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No ano 2000 Cássia começou a voltar para o mainstream com uma música na trilha sonora da novela Laços de Família, grande sucesso da Globo. A canção era Gatas Extraordinárias de Caetano Veloso. O estouro, o maior de sua carreira, chegou no início de 2001 com uma participação inesquecível no Rock in Rio e com o lançamento do CD/DVD acústico.

Sou fã de Beatles e Smell Like the Spirit é uma das raras músicas do Nirvana que gosto, e afirmo sem pudor que as interpretações de Cássia desta canção e de Sgt Pepper’s Lonely Hearts Club Band dos Fab Four são melhores que o original. Cássia nunca foi compositora, mas conseguia tomar para si qualquer canção. Rock, blues, MPB, samba… era só jogar na mão dela que a música se tornava outra. Se tornava uma música de Cássia Eller.

A voz poderosa, o estilo rock and roll no palco, a versatilidade de cantar bem qualquer música, o desprendimento de (no auge do sucesso) fazer shows em botecos e a coragem de se embrenhar por qualquer estilo musical fazem muita falta para música brasileira e me faz sentir muita falta de Cássia Eller.

O que ela estaria fazendo se estivesse aqui? Qual gênero musical estaria cantando? Quantas barreiras estaria quebrando? Qual seria seu posicionamento num mundo tão louco e cheio de ódio que a gente vive hoje? É uma pena que Cássia tenha nos deixado tão cedo. Ela merecia viver mais, produzir mais e ser mais reconhecida pela artista que era. E nós merecíamos viver na mesma época que uma artista do tamanho de Cássia Eller.

Se você não conhece nada de Cássia Eller ou conhece apenas suas canções, eu te peço: assista ao documentário “Cássia” de Paulo Henrique Fontenelle. Uma das produções de maior qualidade e sensibilidade do cinema nacional. O diretor contou para o Brasil quem era Cássia Eller, mostrou lados que apenas quem era muito fã (me incluo nessa lista) conhecia. Acho que nem se eu quisesse teria contato tão bem a vida de Cássia como fez Fontenelle.

*Ah… e é claro que escrevi esse texto ouvindo Cássia Eller. Ouçam também, tá aí embaixo!

 

Fonte da Vida, meu Aronofsky favorito

Um dos filmes mais subestimados e criticados de Darren Aronofksy, Fonte da Vida é acusado de ser difícil, monótono e pretensioso. Parte dessa ideia vem do fracasso nas bilheterias e de como a obra dividiu a crítica. Passados dez anos de seu lançamento, decidi escrever esse texto para mostrar como gosto do filme (um dos favoritos da vida) e tentar racionalizar em cima de sua trama.

O drama/ficção científica trabalha com três linhas temporais: passado, presente e futuro se misturam para contar uma história de amor. Sim, uma história de amor. Considerado o mais complexo do diretor, o filme pode ser visto como um dos mais simples, já que a relação de amor entre os protagonistas é a espinha dorsal para pensarmos sobre o grande tema da produção: a morte.

No presente, o cientista Tommy Creo corre contra o tempo para descobrir a cura do câncer que acomete sua esposa, Izzi. Enquanto ela, já conformada com a impossibilidade de vencer a doença, escreve um livro para ajudar o marido a lidar com sua morte iminente. Quando Tommy lê o livro somos transportados para o século XVI, em que um conquistador sai em busca da árvore da vida sob o comando da rainha da Espanha, Isabel. A terceira e última trama está no futuro, em que o astronauta viaja num globo junto de uma antiga árvore. Embora as três histórias sejam independentes, as informações contidas em uma serve para o entendimento das outras.

A obsessão dos personagens masculinos (Hugh Jackman) está presente em todas as linhas temporais e tem o mesmo objetivo: a figura feminina (Rachel Weisz). No passado ele quer satisfazê-la, no presente ele quer salvá-la e no futuro ele quer alcançá-la.

O que o astronauta conseguiu no fim? A trama no passado de fato aconteceu? O que é a árvore da vida? Os personagens das três linhas temporais são os mesmos? Não há respostas definitivas para essas e outras possíveis perguntas. O entendimento e apreciação do filme vai do repertório/gosto de cada um. O que faço aqui é contar o que entendi de Fonte da Vida e explicar o porquê ele está na minha lista de favoritos.

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As linhas temporais

Há uma teoria de que o passado seja real, ideia que encontra respaldo na graphic novel produzida por Aronofsky paralelamente ao filme e lançada um ano antes da obra cinematográfica. Nas muitas vezes que assisti ao filme (quatro, talvez) não acreditava que o passado fosse real, mas apenas uma alegoria para ajudar Tommy a lidar com a situação da mulher. Porém, na última vez que vi o filme para escrever este texto mudei de ideia. O roteiro e as rimas visuais (Tommy e Tomas correndo com a câmera de cabeça para baixo numa estrada, um de cavalo e outro de carro – além do final onde o maia enxerga o astronauta na figura do conquistador) tornaram claro para mim que os três homens são um só. Tommy seria a reencarnação de Tomas, enquanto o astronauta é o próprio Tommy que venceu a morte e hoje viaja pelo espaço.

O presente é a linha narrativa mais simples. Tommy está obcecado em encontrar a cura da doença, resistente em aceitar o inevitável e triste por perder a esposa. Do outro lado Izzi está conformada com a morte, triste por perder seus últimos momentos com o marido (pela obsessão que o prende ao trabalho), determinada a ajudá-lo a aceitar seu futuro e aflita com a possibilidade de não conseguir.

Enquanto no presente Izzi está conformada com a morte, no passado é a inconformidade de Isabel (na mira da Inquisição) que a leva a enviar Tomas para encontrar a árvore da vida.

O futuro talvez seja a parte mais difícil de compreender. O filme não diz que aquilo é um futuro, não fala em que ano estamos, não confirma quem é o homem, não aponta em que “meio de transporte” ele está e não nos explica o motivo dele estar meditando em frente a uma árvore. Toda a base para compreender o futuro está no presente e no passado; e essa ajudinha se dá por meio das cores, das rimas visuais, dos enquadramentos e, claro, do roteiro (que fica mais óbvio a cada visita à produção).

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Os nomes

Tommy é o diminutivo de Tomas, a forma inglesa de Ta’oma, palavra originária do aramaico que significa gêmeo. Em latim o nome se transforma em Tomé, e uma das figuras mais famosas a carregar esse nome é São Tomé, um dos apóstolos de Jesus – conhecido como o discípulo da incredulidade por não ter acreditado na ressurreição de Cristo e por suas campanhas missionárias pelo mundo.

Isabel vem de Izebel, nome hebraico que quer dizer casta/pura. Mas muitos autores associam o nome à forma medieval Elisabete, que também surgiu do hebraico e significa “consagrada de Deus”. As variações desse nome (entre elas a inglesa Elizabeth) também foram muito comuns na realeza europeia ao longo dos anos.

Não há como afirmar se a escolha dos nomes foi proposital ou aleatória, mas ela diz algo a respeito dos personagens. Os homens são verdadeiros conquistadores que viajam pela Espanha, pelos meandros da medicina e pelo espaço para atingir o que querem. Enquanto as personagens femininas estão sempre envoltas numa espécie de aura angelical.

A paixão com que Aronofsky filmou sua então mulher transparece na tela, a luz que toma conta de Weisz reluz de tal maneira que é impossível não se encantar por ela ou compreender o que faz Tommy estar tão desesperado para salvar sua vida, ou entender a determinação de Tomas para atender sua rainha. Izzi é frágil, mas ao mesmo tempo é quem tem o controle emocional da situação. Isabel é determinada e, apesar do poder emanado pela coroa, usa de doçura para conseguir o que quer do conquistador. O que exala das mulheres é uma superioridade quase santa. Para alcançar Isabel ou Izzi é necessário fazer esforços sobre-humanos ou até mesmo desistir de suas crenças e se jogar num mar de incertezas guiado pelo universo. O homem é a parte racional que precisa mergulhar no místico (representado pelas figuras femininas) para alcançar a mulher. Não é por acaso que Weisz aparece iluminada, enquanto Jackman está sempre com roupas escuras e no canto mais dark da tela.

Outra curiosidade é o sobrenome Creo, palavra que em espanhol significa “creio” e ajuda a formar um pequeno jogo de palavras escondido no nome Izzi Creo. I (“eu” eu inglês) – zzi (pode ser entendido como um “sí” em espanhol, que significa sim) – Creo (“creio” em espanhol). “Izzi Creo” = “Eu sim creio”. A fé da rainha está na árvore da vida, enquanto a fé de Izzi está na certeza de que a vida só será completa com a morte.

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Os círculos

A primeira cena do filme traz um círculo. As tatuagens, as alianças, o vestido de Isabel, os brincos de Izzi, a “nave” do astronauta, a luz que forma uma espécie de auréola sobre a cabeça dos personagens… Círculos e mais círculos para representar visualmente o ciclo da vida. Os círculos simbolizam a ideia (ou o fato) de que não é possível vencer a morte.

Na corrida contra o tempo para combater o câncer da esposa, Tommy perde sua aliança. Isso pode representar que, desde que descobriu a doença, ele faz de tudo para se afastar e não aceitar o (até então) incontestável ciclo da vida. No momento de maior tristeza, ele tatua o anel em seu dedo para se manter conectado a Izzi – o que também significa sua reaproximação com o ciclo da vida, e a obrigação de que tem de aceitá-lo, já que não pôde impedi-lo. No futuro, a representação do amor dos protagonistas se expande pelos braços do astronauta (cada círculo tatuado pode significar mais um ano sem Izzi). Quanto mais círculos ele faz para provar que sua união com Izzi não foi extinta pela morte, mais eles servem para lembrá-lo da existência implacável do ciclo da vida.

Rimas visuais

Nesse ponto fica difícil entender o motivo de alguns considerarem o filme difícil. Em muitos momentos o diretor diz as coisas de forma clara por meio de enquadramentos, por exemplo. Num momento o astronauta toca os cílios da casca da árvore para na sequência vermos os pelos da nuca de Izzi, um dos indícios de que ela é a própria árvore da vida.

Tommy planta uma semente no túmulo de Izzi e no futuro vemos o astronauta viajar pelo universo ao lado de uma árvore, ilustrando que a árvore nasceu de Izzi. A esposa representa para Tommy sua fonte de vida. E o que é a árvore da vida no mito das religiões senão a mesma coisa?

Além dos círculos, curioso também a frequência de “corredores” no filme. Seja nas escadas do museu onde Izzi desmaia, no caminho para chegar ao inquisidor, na rodovia que leva ao hospital, no laboratório, na casa de Tommy… Os personagens masculinos estão sempre seguindo um caminho reto em busca de seus objetivos, ignorando a implacabilidade da vida. Mas só encontram a paz no fim desse corredor, onde estão os círculos em suas variadas formas.

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Elenco

Em 2006 Hugh Jackman já havia sido alçado ao estrelato por X-Men. Porém o reconhecimento era mais associado ao seu corpo e ao Wolverine. Embora também atuasse no teatro e fosse famoso por seu talento em musicais, o ator não era visto pelo grande público como capacitado para encarar personagens mais complexos/dramáticos no cinema. Portanto, é provável que a presença dele neste drama tenha pego alguns desavisados de surpresa. Mas o fato é que o filme pode ser considerado um divisor de águas em sua carreira, já que depois de Fonte da Vida Jackman passou a ser visto com outros olhos. Afinal… Não é qualquer um que consegue atuar sozinho diante de um chroma key.

A obra foi lançada no mesmo ano em que Rachel Weisz ganhou o Oscar de melhor atriz coadjuvante por O Jardineiro Fiel (Fernando Meirelles). E embora aqui ela não tenha o mesmo destaque de seu colega de elenco, Weisz é essencial para comprarmos os dramas dos personagens masculinos. A segurança com que ela vai da determinação da rainha para os variados sentimentos de Izzi compõe mais uma bela atuação na já então consolidada carreira da atriz.

Destaque também para a Ellen Burstyn, que esteve brilhante em sua primeira parceria com Aronofsky em Réquiem Para um Sonho (2000). A atriz tem pouco tempo de tela aqui, mas ainda assim é possível sentir sua força em cena.

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O final

Tomando como certo que os três homens são a mesma pessoa,Tommy descobriu não apenas a cura do câncer, mas uma forma de vencer a morte. Ele se tornou imortal e agora atravessa os séculos buscando se reencontrar com a esposa. A imortalidade foi alcançada, mas… E agora? Qual o sentido de viver só? De que serve a imortalidade se ele não está ao lado de quem deseja?

A viagem do astronauta em seu globo é uma missão que objetiva trazer Izzi de volta à vida. Talvez ele acredite que a árvore é Izzi, ou que a árvore é a ferramenta que vai trazer sua esposa de volta. O fato é que ele parte rumo à shibalba para alcançar essa meta.

Shibalba é a estrela apontada por Izzi no início do filme que, no mito da criação maia, é o lugar onde as almas mortas vão para renascer. Se o astronauta acredita que carrega a árvore da vida (ou apenas Izzi na forma de uma árvore) e que seu destino final é uma estrela com esse poder, é compreensível que ele creia que do choque entre seu globo e shibalba será criada uma espécie de força que trará Izzi de volta.

No presente, Izzi dá caneta e tinteiro para que Tommy termine o livro, deixando claro que ela não terá condições de fazê-lo. Ela diz “finish it (termine)” e ele se recusa, ainda com esperança de que Izzi não vai morrer. No futuro, ao lado da árvore, o astronauta segue ouvindo a mulher dizer “finish it”. Se até então pensávamos que o objetivo da viagem era trazer Izzi de volta à vida, aos poucos vamos entendendo que a viagem significa o fim da jornada do astronauta. Enquanto tenta manter a árvore viva, ele medita revivendo sua vida e aos poucos se dá conta de que precisa fazer o que a mulher lhe diz: Finish it! Mas agora não é só o livro que precisa ser finalizado, mas a própria vida. Durante toda a viagem o astronauta demonstra seu medo em terminar a jornada e, na parte final do filme, ele finalmente aceita que é preciso fazer. “Eu vou morrer”, é o que ele diz com um alívio no rosto. “Juntos nós viveremos para sempre”, responde a mulher.

Se durante todo o filme o astronauta medita, no fim ele alcança o nirvana. O nirvana simboliza não apenas a reação química resultante do choque na estratosfera, mas principalmente o momento espiritual do protagonista. A explosão é um instrumento visual (respaldado pelos elementos que compõem a fatia ficção científica do filme) para ilustrar a libertação do espírito do astronauta e, consequentemente, sua morte.

Além de causar a morte, a explosão também resulta no florescimento da árvore. O mesmo ocorreu no passado, da morte de Tomas surgiu o florescimento de novas plantas.

Depois de séculos tentando alcançar a esposa e fracassando sucessivamente nesse objetivo, o astronauta finalmente abandona sua racionalidade e busca Izzi por meio da fé. Para ter Izzi de volta é preciso abrir mão daquilo que conseguiu com tanto esforço: a imortalidade; E se entregar ao que sempre evitou: a morte.

Muitos podem apontar que a certeza de encontrar a mulher em outro plano demanda fé. Mas neste ponto vejo mais de uma possibilidade de interpretação, o que faz o filme ser encantador tanto para os que têm fé quanto para os que não têm. A morte pode significar a passagem para outra dimensão, onde Izzi e Tommy finalmente se reencontrariam. Mas também pode significar o fim de um tormento para ele. Afinal, com a morte o protagonista não precisa mais carregar o sofrimento causado pela ausência da mulher, não precisa mais seguir o calvário que a vida se tornou.

De qualquer forma, a morte representa uma libertação. O filme usa elementos filosóficos, roteiro criativo, ideias escondidas em detalhes, metáforas e mais metáforas para nos dizer o simples: a morte é inevitável e é preciso aceitá-la.

Goodbye, Starman…

DB

Os acordes de Starman são uma das primeiras recordações musicais que tenho na vida. Lembro de estar no portão de casa (que ficava no mesmo terreno da casa da minha avó) olhando para a avenida já movimentada do primeiro bairro que morei vendo meus pais irem trabalhar e meus irmãos irem para a escola ao som dessa música. Minto. Não era essa música, era o cover questionável feito pela banda brasileira Nenhum de Nós. Sim… confesso que conheci David Bowie pela banda gaúcha.

Tinha menos de oito anos (estabeleço esse antes e depois na minha infância pois com essa idade me mudei de bairro, mas nunca sei determinar qual a idade exata abaixo dos oito) e lembro de sentir algo totalmente diferente quando ouvia essa música. Não era apenas curtir, achar legal ou talvez até querer dançar; era uma vibe diferente. O tempo passou, a canção original chegou em minha vida e descobri que a música da minha infância era um cover. Isso estragou a experiência? Não! O importante é que de uma maneira ou outra David Bowie chegou em mim, e tempos depois eu consegui (re) conhecê-lo.

A música foi lançada em 1972 e apenas em 1989 (quando eu tinha um ano) ela se tornou um cover no Brasil. Hoje é comum criticar as cópias, mas será que eu teria conhecido Bowie na infância se não fosse a rádio tocando Nenhum de Nós incessantemente no auge do rock nacional?

Com o passar do tempo fui conhecendo mais do trabalho do camaleão britânico, mas nunca me importei tanto com música a ponto de conhecer artistas novos e saber exatamente qual composição era de quem. As músicas chegavam e saiam da minha vida e, na infância, eu nem ao menos sabia quem cantava. O que importa é que um cara que eu nunca conheci (e infelizmente nunca vou conhecer) entrou na minha vida, me fez sentir coisas que nem imaginava serem possíveis ouvindo uma canção e ainda hoje me faz tremer toda vez que ouço as notas iniciais de Starman – mesma canção que me fez chorar hoje de manhã, por lembrar que o criador da música que mexeu e ainda mexe tanto comigo se foi.  

Quando eu ouvia essa música no portão da minha antiga casa meu avô estava vivo, meu pai estava vivo, minha avó estava em melhores condições de saúde, a família se reunia com mais frequência aos domingos e minha preocupação era apenas brincar. Quando alguém morre (qualquer pessoa que seja), parte de nós vai embora junto. Todas essas coisas que citei foram embora da minha vida, e agora David Bowie foi embora desse mundo. A morte é o fim de um tempo, de um momento, de uma era, de uma geração. Vivi no tempo de Bowie e, mesmo passando parte do tempo sem saber quem ele era, ele fazia parte da minha vida e foi um dos primeiros músicos a despertar em mim o amor por essa arte. Infelizmente meus filhos não viverão no tempo de Bowie. A morte dele me tocou profundamente – mais do que eu imaginava; e mesmo que você não conheça ou não seja fã, é impossível não se sentir pra baixo, afinal, como diz o poema: “A morte de qualquer homem me diminui porque sou parte do gênero humano”.

“Nenhum homem é uma ilha isolada; cada homem é uma partícula do continente, uma parte da terra; se um torrão é arrastado para o mar, a Europa fica diminuída, como se fosse um promontório, como se fosse a casa dos teus amigos ou a tua própria; a morte de qualquer homem diminui-me, porque sou parte do gênero humano. E por isso não perguntes por quem os sinos dobram; eles dobram por ti”. John Donne

 

 

Resenha: A Pequena Loja de Suicídios

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Lançado em 2012, a animação musical francesa A Pequena Loja de Suicídios é uma adaptação do livro homônimo de 2007, escrito por Jean Teulé. A trama se passa numa cidade melancólica da França, onde quase toda a população tem como sonho o suicídio. A origem dessa disposição humana não é bem explicada, mas fica claro que o país vive uma forte crise em todos os aspectos.

A disposição dos cidadãos em dar cabo à própria vida está tão incrustada naquela sociedade que há leis para que não sejam cometidos suicídios em via pública. É corriqueiro alguém se colocar diante de um carro, ser atropelado, morrer e, logo na sequência, uma viatura policial chegar ao local do incidente e apenas deixar uma multa ao lado do corpo. “Mas como multar um morto?”, pergunta um personagem – “A Família é quem deve pagar a dívida”, responde outro.

Toda essa tristeza e melancolia é mostrada de forma magistral pela fotografia e traços dos personagens. A cidade é cinza, parada, sem vida, assim como seus moradores. Os personagens caminham pelas ruas feito zumbis, sem qualquer tipo de esperança em ter uma vida melhor. É possível notar as olheiras, rostos e corpos afilados, o olhar sempre pra baixo, as rugas que sempre mantém os lábios longe de um sorriso e a postura mórbida de quem não tem mais motivos para viver.

E com tantos potenciais suicidas e com uma lei que impede tal prática nas ruas, nada melhor do que comercializar em cima disso. E é daí que vem o título da obra. A Pequena Loja de Suicídios da família Tuvache vende toda a sorte de ferramentas para quem quer se matar. Cordas já amarradas para serem colocadas no pescoço, venenos, facas, armas, gás e qualquer outra coisa que ajude a tirar uma vida.

Assim como toda a população, a morbidez também toma conta da família Tuvache. Mas o cenário muda quando o casal ganha seu terceiro filho, Alan. Diferente de quase todos nesse mundo, Alan é um menino alegre. É na figura dele que reside toda a beleza do filme. Apesar da aura depressiva, a obra fala de vida. Ela discute o valor da vida e como seguir em frente mesmo não tendo tantos motivos. E nesse ponto o filme guarda muitas semelhanças com Ensina-me a Viver (1971), só que de uma forma mais idílica por se tratar de uma animação.

O gestual do menino ao lado dos parentes é uma das melhores metáforas visuais do filme. Enquanto todos estão com roupas escuras e caminhando de forma mecânica, Alan está com sua camisa de um verde vivo e dando pulos a cada passo. A felicidade do garoto é sempre repreendida pela família, mas aos poucos ele começa a contagiar o ambiente ao seu redor.

Toda a trama é entrecortada por canções que, além de belas, ajudam a contar o que realmente sente cada um cada personagem. Sem contar que ouvir uma música na língua francesa torna a experiência ainda mais interessante.

Apesar do título assustador e de toda ambientação e construção dos personagens remeterem a algo triste, melancólico e depressivo, a mensagem da animação/musical é extremamente positiva. O recurso usado por Alan no terceiro ato do longa para chamar a atenção da família para a beleza da vida é uma das coisas mais tocantes que vi no cinema. O tema já foi tratado em vários filmes, mas geralmente com um dramalhão. O bom do cinema francês é que tudo acontece de forma irônica e sutil. E a emoção vem no entendimento dos pequenos gestos, cenas, músicas e cores do filme.