Resenha: A Pequena Loja de Suicídios

A pequena loja de suicídios

Lançado em 2012, a animação musical francesa A Pequena Loja de Suicídios é uma adaptação do livro homônimo de 2007, escrito por Jean Teulé. A trama se passa numa cidade melancólica da França, onde quase toda a população tem como sonho o suicídio. A origem dessa disposição humana não é bem explicada, mas fica claro que o país vive uma forte crise em todos os aspectos.

A disposição dos cidadãos em dar cabo à própria vida está tão incrustada naquela sociedade que há leis para que não sejam cometidos suicídios em via pública. É corriqueiro alguém se colocar diante de um carro, ser atropelado, morrer e, logo na sequência, uma viatura policial chegar ao local do incidente e apenas deixar uma multa ao lado do corpo. “Mas como multar um morto?”, pergunta um personagem – “A Família é quem deve pagar a dívida”, responde outro.

Toda essa tristeza e melancolia é mostrada de forma magistral pela fotografia e traços dos personagens. A cidade é cinza, parada, sem vida, assim como seus moradores. Os personagens caminham pelas ruas feito zumbis, sem qualquer tipo de esperança em ter uma vida melhor. É possível notar as olheiras, rostos e corpos afilados, o olhar sempre pra baixo, as rugas que sempre mantém os lábios longe de um sorriso e a postura mórbida de quem não tem mais motivos para viver.

E com tantos potenciais suicidas e com uma lei que impede tal prática nas ruas, nada melhor do que comercializar em cima disso. E é daí que vem o título da obra. A Pequena Loja de Suicídios da família Tuvache vende toda a sorte de ferramentas para quem quer se matar. Cordas já amarradas para serem colocadas no pescoço, venenos, facas, armas, gás e qualquer outra coisa que ajude a tirar uma vida.

Assim como toda a população, a morbidez também toma conta da família Tuvache. Mas o cenário muda quando o casal ganha seu terceiro filho, Alan. Diferente de quase todos nesse mundo, Alan é um menino alegre. É na figura dele que reside toda a beleza do filme. Apesar da aura depressiva, a obra fala de vida. Ela discute o valor da vida e como seguir em frente mesmo não tendo tantos motivos. E nesse ponto o filme guarda muitas semelhanças com Ensina-me a Viver (1971), só que de uma forma mais idílica por se tratar de uma animação.

O gestual do menino ao lado dos parentes é uma das melhores metáforas visuais do filme. Enquanto todos estão com roupas escuras e caminhando de forma mecânica, Alan está com sua camisa de um verde vivo e dando pulos a cada passo. A felicidade do garoto é sempre repreendida pela família, mas aos poucos ele começa a contagiar o ambiente ao seu redor.

Toda a trama é entrecortada por canções que, além de belas, ajudam a contar o que realmente sente cada um cada personagem. Sem contar que ouvir uma música na língua francesa torna a experiência ainda mais interessante.

Apesar do título assustador e de toda ambientação e construção dos personagens remeterem a algo triste, melancólico e depressivo, a mensagem da animação/musical é extremamente positiva. O recurso usado por Alan no terceiro ato do longa para chamar a atenção da família para a beleza da vida é uma das coisas mais tocantes que vi no cinema. O tema já foi tratado em vários filmes, mas geralmente com um dramalhão. O bom do cinema francês é que tudo acontece de forma irônica e sutil. E a emoção vem no entendimento dos pequenos gestos, cenas, músicas e cores do filme.

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