Goodbye, Starman…

DB

Os acordes de Starman são uma das primeiras recordações musicais que tenho na vida. Lembro de estar no portão de casa (que ficava no mesmo terreno da casa da minha avó) olhando para a avenida já movimentada do primeiro bairro que morei vendo meus pais irem trabalhar e meus irmãos irem para a escola ao som dessa música. Minto. Não era essa música, era o cover questionável feito pela banda brasileira Nenhum de Nós. Sim… confesso que conheci David Bowie pela banda gaúcha.

Tinha menos de oito anos (estabeleço esse antes e depois na minha infância pois com essa idade me mudei de bairro, mas nunca sei determinar qual a idade exata abaixo dos oito) e lembro de sentir algo totalmente diferente quando ouvia essa música. Não era apenas curtir, achar legal ou talvez até querer dançar; era uma vibe diferente. O tempo passou, a canção original chegou em minha vida e descobri que a música da minha infância era um cover. Isso estragou a experiência? Não! O importante é que de uma maneira ou outra David Bowie chegou em mim, e tempos depois eu consegui (re) conhecê-lo.

A música foi lançada em 1972 e apenas em 1989 (quando eu tinha um ano) ela se tornou um cover no Brasil. Hoje é comum criticar as cópias, mas será que eu teria conhecido Bowie na infância se não fosse a rádio tocando Nenhum de Nós incessantemente no auge do rock nacional?

Com o passar do tempo fui conhecendo mais do trabalho do camaleão britânico, mas nunca me importei tanto com música a ponto de conhecer artistas novos e saber exatamente qual composição era de quem. As músicas chegavam e saiam da minha vida e, na infância, eu nem ao menos sabia quem cantava. O que importa é que um cara que eu nunca conheci (e infelizmente nunca vou conhecer) entrou na minha vida, me fez sentir coisas que nem imaginava serem possíveis ouvindo uma canção e ainda hoje me faz tremer toda vez que ouço as notas iniciais de Starman – mesma canção que me fez chorar hoje de manhã, por lembrar que o criador da música que mexeu e ainda mexe tanto comigo se foi.  

Quando eu ouvia essa música no portão da minha antiga casa meu avô estava vivo, meu pai estava vivo, minha avó estava em melhores condições de saúde, a família se reunia com mais frequência aos domingos e minha preocupação era apenas brincar. Quando alguém morre (qualquer pessoa que seja), parte de nós vai embora junto. Todas essas coisas que citei foram embora da minha vida, e agora David Bowie foi embora desse mundo. A morte é o fim de um tempo, de um momento, de uma era, de uma geração. Vivi no tempo de Bowie e, mesmo passando parte do tempo sem saber quem ele era, ele fazia parte da minha vida e foi um dos primeiros músicos a despertar em mim o amor por essa arte. Infelizmente meus filhos não viverão no tempo de Bowie. A morte dele me tocou profundamente – mais do que eu imaginava; e mesmo que você não conheça ou não seja fã, é impossível não se sentir pra baixo, afinal, como diz o poema: “A morte de qualquer homem me diminui porque sou parte do gênero humano”.

“Nenhum homem é uma ilha isolada; cada homem é uma partícula do continente, uma parte da terra; se um torrão é arrastado para o mar, a Europa fica diminuída, como se fosse um promontório, como se fosse a casa dos teus amigos ou a tua própria; a morte de qualquer homem diminui-me, porque sou parte do gênero humano. E por isso não perguntes por quem os sinos dobram; eles dobram por ti”. John Donne

 

 

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