É preciso entender o significado da palavra “equidade”

De acordo com o Aurélio, o substantivo feminino derivado do  Latim aequitas, de aequus (igual, equitativo),  significa igualdade, retidão na maneira de agir, reconhecimento dos direitos de cada um, justiça reta e natural. 

Equidade

 

Possivelmente já passei por essa palavra em vários momentos da vida. Mas lembro muito dela ao estudar para um concurso na área da Saúde, no fim de 2013. Precisei entender o funcionamento do SUS e lá estava ela: a equidade, uma das doutrinas fundamentais do Sistema Único de Saúde. A tal equidade diz que todos os cidadãos têm o direito de usufruir do sistema de saúde, mas levando em conta que locais e pessoas diferentes têm necessidades diferentes, e por isso soluções e esforços diferentes devem ser feitos de acordo com o contexto em questão.

Ou seja, não é possível tratar todos da mesma maneira. O que pode resolver o problema de uma pessoa não é o suficiente para outra. E sim, política, é nesse ponto que quero chegar, meus amigos.

Durante a campanha, e agora com a reeleição de Dilma Rousseff, ouvi e li muitas coisas do tipo: “O nordestino não trabalha e come à custa do governo”, “A Dilma pega o meu dimdim para distribuir no Nordeste”, “O PT só ganhou por causa do Bolsa Família”, “O Bolsa Família é esmola, o governo tem que por esse povo pra trabalhar”, “O nordestino é folgado e vota em que lhe dá um prato de comida”. Palavras ainda mais pesadas e preconceituosas como essas foram disparadas por aí, e muitos ainda descobriram uma frase de Orson Scott Card para mostrar o quanto são cultos na hora de fazer julgamentos nas nas redes sociais: “Se os porcos pudessem votar, o homem com o balde de comida seria eleito sempre, não importa quantos porcos ele já tenha abatido no recinto ao lado.”

A questão é que o meu umbigo não é a capital do universo, e nem o seu, caro leitor. Ligar a vitória petista apenas ao seu mais famoso programa social não faz sentido. Ainda mais se pensarmos que São Paulo (que deu a vitória a Aécio Neves) é o segundo estado com o maior número de beneficiados do Bolsa Família, 1,2 milhão de pessoas, atrás apenas da Bahia, com 1,8 milhão.

Mapa das eleições

Mas, motivos da vitória à parte, o que me impressionou é que as eleições e seu resultado mostraram o quanto grande parte do povo brasileiro é egoísta e mesquinha. É insuportável para alguns imaginar que milhões de famílias brasileiras recebem dinheiro do governo sem ter que trabalhar por ele. É insuportável receber o salário no fim do mês depois de muito suor e imaginar a quantidade de nordestinos que acabaram de sacar seu benefício sem cumprir 40 horas de trabalho semanal. Mas o que todo mundo esquece é que os 10% mais ricos do Brasil detêm quase toda a renda nacional.

A questão, meus caros, é que grande parte das pessoas que recebe o Bolsa Família jamais teve as oportunidades que você tem. E é aí que entra a tal equidade, e a necessidade de entender que NÃO, não somos todos iguais.

A minha realidade não é a mesma que a de um paraibano que não tem condições de comprar uma única peça de roupa. A sua realidade não é a mesma que a de uma garota do interior de São Paulo que jamais teve um momento para pensar o que era uma faculdade. A minha cozinha não é o Brasil, e nem a sua é. Nosso país é gigante, tem mais de 200 milhões de pessoas, e é no mínimo insano imaginar que todas essas pessoas têm as mesmas chances na vida.

Compreendendo as diferenças

Só estive em três estados brasileiros, e mesmo desconhecendo a maior parte de nosso país, sei que minha realidade não é a mesma de todos os meus compatriotas. Há pessoas que não têm uma casa decente, uma cidade com saneamento básico, pais que trabalhem ou que sequer têm uma oportunidade de emprego na cidade onde vivem. Há muitos jovens que não pensam na possibilidade de uma faculdade, porque desde os dez anos de idade estão trabalhando para ajudar a por comida na mesa. O destino de muitas pessoas é apenas buscar uma forma de comer, porque não há outras possibilidades na vida.

Quando saí do Ensino Médio meu próximo passo seria a faculdade. Mas fiquei um ano sem entrar no Ensino Superior porque não tive condições financeiras. Sequer pensei na possibilidade de tentar uma faculdade federal porque sabia que não teria condições, naquele momento, de viver em outra cidade. Muitos de meus amigos saíram direto da escola para a faculdade, era o caminho natural, e para muitos o único caminho que existia. Ou seja, jamais passou pela cabeça de alguns deles fazer outra coisa da vida que não fosse um curso superior. Não havia outro caminho para eles. Mas você acredita mesmo que a cabeça de todas as pessoas é assim? Acredita de verdade que fazer inglês, natação, judô, faculdade, pós-graduação é o caminho natural desses mais de 200 milhões de brasileiros? Acredita mesmo que pegar um item qualquer no supermercado e jogar no carrinho pra mamãe e papai pagarem com o cartão de crédito é a realidade de todos?

A nossa realidade, nossos pais, nossa educação, nossa cidade e todas as centenas de coisas que nos cercam fazem de nós o que somos. Deve ser realmente difícil entender que todos os brasileiros não têm as mesmas condições de vida quando se é alguém que tem uma casa montada, tem pais que trabalham e são razoavelmente bem remunerados, se faz uma viagem todo feriado, tem a chance de sair do Brasil e pode se dar ao luxo de optar em qual universidade vai fazer aquele curso dos sonhos; e tudo isso sem jamais pensar se terá alguma coisa para comer quando chegar à cozinha de casa. Deve ser um trabalho árduo imaginar a realidade do outro quando a única coisa que vemos é nosso umbigo, nossas prioridades. “O que a Dilma fez por nós, os ricos?”, questionou uma jovem de direita durante passeata (na nobre Zona Oeste de São Paulo) que reuniu o mar de 30 pessoas para pedir o impeachment da presidenta Dilma.

 

O Bolsa Família tirou o Brasil, pela primeira vez, do Mapa da Fome da ONU. Milhares de seres humanos morriam por não ter sequer um pedaço de pão em casa, principalmente no Nordeste, porque os governos anteriores jamais olharam para a parte de cima do mapa do Brasil. Mas há doze anos a fome foi finalmente enxergada, assim como uma forma exterminá-la. Mas pensar em matar a fome de milhões de pessoas é impensável para as classes alta, média, média alta e por aí vai…

É curioso as pessoas apontarem o Bolsa Família como assistencialista quando lembramos que um dos principais apoiadores do candidato da direita foi o apresentador Luciano Huck, que tem o assistencialismo barato como o principal motor de seu programa semanal. Quadros que têm por objetivo alavancar a audiência e conseguir mais e mais patrocínio por meio das lágrimas de um pobre. Ou você realmente acredita que ele está preocupado com aquelas pessoas, e com a megaexposição que faz do sofrimento alheio?

O programa social pode ser encarado como assistencialista,  mas ele deu resultado em curtíssimo prazo. Salvou milhões de pessoas de um destino tenebroso, que era certo há alguns anos. É óbvio que há centenas de áreas a serem melhoradas no Brasil, mas desqualificar um programa que diminuiu o coronelismo e praticamente erradicou a fome em nosso país nada mais é que mesquinhez.

Um prato de comida não vai resolver meus problemas, mas resolveu a vida de milhões de pessoas. Equidade, meus amigos, é disso que estou falando.

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